quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Literatura na primeiríssima infância: os ritos

   Uma das perguntas que mais ouço quando relato descobertas em minha pesquisa sobre bebês leitores é a respeito dos procedimentos que os adultos devem adotar para que seus bebês se tornem crianças leitoras
   Respondo de imediato: leia para ele!
   E logo emendo: escolha bons livros, leia todos  os dias!
   E exagero: não entregue a ninguém, nem ao bebê a tarefa de ler. Essa tarefa é do adulto da espécie!
 E argumento: nós, Sapiens, devemos, por preservação, se não houver argumento mais sólido – e há – educar os infantes. Com relação à linguagem, maior traço distintivo entre nós e as demais espécies que conosco habitam esse planeta, devemos educar o gosto, pois este não é genético, não vem inserido no DNA. Gostar de ler e ler o que é bom se aprende em casa, no colo do pai e da mãe, da avó ou da madrinha e até de tia-avó. Pode até ser que, em alguns casos, se aprenda na escola, mas aí o assunto é outro...
Tendo como objetivo apresentar resultados de pesquisas que vêm sendo desencadeadas em duas instituições – UNESP/Presidente Prudente/SP e UFPel/RS – escrevei, recentemente, um artigo no qual revelo que bebês indicam ter “repertório literário” e que este pode ser observado em comportamentos espontâneos e adquiridos.
Como fonte teórica para o diálogo com as descobertas que realizo desde 2015, cerco-me de pesquisadores para quem as práticas formadoras do leitor são definidas pelo conteúdo – o que ler – e pelos procedimentos ou “como” ler.
No primeiro aspecto, Cademartori (2014), Machado (2002), Paulino (2014) e Zilberman (2005), concordam que o texto literário deve ser ponto de partida para a alfabetização literária. Com relação aos procedimentos, Tzvetan Todorov (2010) nos ensina que a principal função de um professor é iniciar os seus “nessa parte tão essencial de nossa existência que é o contato com a grande literatura” e que a escola deveria “ensinar os alunos a amar a literatura”. Aqui, me refiro a todos os tipos de professor...
     Para a pesquisa que desencadeei um pouco antes do nascimento da Júlia, a primeira bebê a ser acompanhada até os três anos de idade, organizei coletas de informações em interações com bebês, os livros, suas mães e eu mesma.
Entre os primeiros resultados – descreveo atitudes de bebês bem pequenos em relação aos livros. E informe quais as atitudes que indicam se já foram apresentados a práticas culturais nas quais o livro é protagonista.
     Nas interações com os bebês, observei gestos, ritos e modos de ter contato com o livro mesmo quando o bebê indistingue o artefato cultural de qualquer outro objeto. Esses modos de manipular independem de sua idade cronológica e revelam o quão familiarizado o bebê está com livros e modos de ler.
Percebi que, em alguns casos, o bebê confunde o livro com um objeto qualquer, como um chocalho, bola ou uma boneca. O primeiro gesto que observamos foi tocar e bater sobre o livro. Ele busca sentir as dimensões do objeto. Logo depois, busca pegar e aproximar o livro de si e da boca – fonte conhecida de sensações. Após bater, tocar, pegar e aproximar, o bebê leva o livro à boca, evidenciando que não conhece, não foi apresentado ao livro como objeto cultural. Pode também ocorrer de o bebê, ao “pegar de qualquer jeito”, ao tentar olhar e ou folhear, pode folhear de “trás para frente”, ou pegar várias páginas ao mesmo tempo. São indícios de que ao bebê ainda não foram disponibilizados os rudimentos do comportamento leitor, atitudes prévias e imprescindíveis para a alfabetização literária.
    Diferentemente, entre os bebês que já foram apresentados ao livro como objeto central da cultura escrita, as atitudes são diferentes e, de forma mais intensa, também manifestam seu repertório de informações sobre o livro, a leitura e a literatura.
     Entre as evidências do comportamento adquirido – quando o bebê indica perceber os ritos no trato com o livro – pude observar que costuma folhear e ajudar o adulto a folhear. Quando este está lendo, ouve com atenção. Se lhe é oportunizado, segura sozinho o livro, imitando a ação do adulto e, quando permite, escolhe o que quer ler, abre, observa, fecha, troca, guarda. Eventualmente, reclama se o livro se fecha e comemora ter encontrado algo conhecido em alguma página ou capa. Ao apontar o livro ou imagens nele, indica ao adulto que o livro está danificado, responde a perguntas olhando e/ou apontando para imagens ou escritos, e balbucia, exclama, põe a mão na cabeça e “lê” em voz alta, com entonação. São alguns dos indícios de que o bebê conhece ritos esperados quando o objeto em interação é o livro. Percebi ainda, que alguns bebês estranham um livro desconhecido e o comparam, descartam, devolvem, se não querem a interação com aquele livro, por exemplo.
Orientações para quem quer começar...
Para quem quer inciar o processo - tornar seu bebê um apreciador de literatura, um leitor -, duas atitudes são as mais importantes: Gostar de ler e gostar de ler para o bebê.
Os livros, nesse primeiro momento, podem ser os da Eva Furnari, no Brasil os mais adequados para os pequeninhos: pelo formato, ilustrações e texto. A coleção Miolo Mole é a mais adequada.
Depois é fazer sempre, todos os dias, os mesmos ritos e ir qualificando e ampliando a biblioteca do bebê.
Faça o seguinte:
1.   Convide o teu bebê a ouvir com atenção;
2.   Permita e incentive-o a escolher o que quer ler;
3.   Apresente capa, tamanho, indique figuras, letras, formas, cores, formato, entre outros elementos que compõem o livro;
4.   Leia com voz adequada a cada momento da narrativa: em voz alta, com entonação, com rima, imitando ou inventando vozes para os personagens e cante, quando há canções;
5.   Convide a folhear ou permita que o bebê te ajude a folhear;
6.   Permita e incentive-o a segurar sozinho o livro;
7.   Narre os ritos de abrir, observar, fechar, trocar, guardar. Assim: Vamos abrir nosso livro? Olha só, o menino está andando de bicicleta! Será que ele vai passear na praia? Vamos folhear a próxima página e descobrir?
8.   Aponte e nomeie o livro entre outros objetos (brinquedos, por exemplo) ou imagens nele, para identificá-lo para a criança;
9.   Indique e mencione se eles foi danificado e lamente, solicitando que se cuide dele;
10.       Pergunte ao bebê olhando e/ou apontando para imagens ou escritos, sobre o que ele está vendo e ajude-o a identificar essas imagens;
11.       Compare, escolha, devolva, guarde, cuide e narre cada uma dessas atitudes, para que o bebê saiba que o livro e sua presença na família é importante;
12.       Presenteie livros, leve o bebê a ritos e eventos de letramento e mencione a coleção que ele está iniciando;
13.       Dê a ele os teus livros de infância e diga há quanto tempo estes livros estão entre vocês;
14.       Indique pessoas que leem, elogie os benefícios da leitura e usufrua da companhia do teu bebê ao ler os livros dele com ele;
15. Escolha um ligar no quarto ou na casa em que oslivros do bebê serão armazenados, indicque esse ligar para ele, dê acesso e elogio os cuidados que el tem com seu acervo. Por fim, deleite-se lendo com ele!


Referências: ROSA, C.M. & JUNQUEIRA, R.  Alfabetização literária: os bebês e seus modos de ler. Trabalho apresentado no Jogo do Livro. Belo Horizonte: FaE/UFMG, 2017. Para ler o artigo integral, escreva para cris.rosa.ufpel@hotmail.com


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Eu recomendo: Bem do seu tamanho...

Encontrei “Bem do seu tamanho”, um conto em capítulos, quase uma novela de Ana Maria Machado, quando procurava um presente de ano novo para minha sobrinha Ana Clara.
Na livraria, abri para ler e não resisti: comprei. E não parei mais de admirar esse conto bem levinho e profundo ao mesmo tempo.
Fiquei imaginando a Ana Clara pensamentando durante a leitura dele...
E curiosa por saber o que ela pensaria e diria de cada uma das situações que uma menina, quase do tamanho dela, vive nessa aventura.
Repleto de imaginação que a linguagem peculiar de Ana Maria Machado deixou parecendo verdade inventada ou invenção verdadeira, nele, a autora apresenta a infância como a idade da dúvida.
E é.
No livro, não há conceitos, embora o leitor não deixe de encontrá-los.
No livro não há lições de moral, embora elas possam ser depreendidas sutilmente.
No livro há crianças, personagens que mergulham em si mesmas e levam a sério suas dúvidas, seus desejos de saber.
As questões de Helena, a personagem do texto inteiro, extrapolam seu projeto inicial – descobrir seu tamanho – ao conectar-se com outros: os talentos de Tipiti, as palavras de Flávia, as dívidas do retratista, as alegrias do povo. E tem bicicleta, burrico, boi de mamão, pescaria, varandas e punhos de rede.
E tem viagem, descanso, saudade.
Pequena ou grande?
Essa é a questão de Helena.
Leia um trecho:
“Era uma vez uma menina. Não era uma menina deste tamanhinho. Mas também não era uma menina deste tamanha. Era um amenina assim mais ou menos do seu tamanho. E muitas vezes ela tinha vontade de saber que tamanho era esse, afinal de contas. Porque tinha dias que a mãe dela dizia assim;
– Helena, você já está muito grande para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu tamanho chegar em casa assim tão suja de ficar brincando na lama? Venha logo se lavar.
Então ela achava que era bem grande.
Mas às vezes, também, o pai dela dizia assim:
– Helena, você ainda é muito pequenininha para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu tamanho ficar brincando num galho de árvore tão alto assim? Desça já daí. Senão, você pode cair.
Aí Helena achava que ela era mesmo uma bebezinha que não podia fazer nada sozinha.
E era sempre assim. Na hora de ira ajudar no trabalho da roça, ela já era bem grande. Na hora de ir tomar banho no rio e nadar no lugar mais fundo, ela ainda era muito pequena” (Machado, 2003, p. 05).

Aventura que acontece na roça – essa região brasileira desconhecida para leitores urbanos – Bem do seu tamanho é uma narrativa singular bordada com os desenhos e as cores da Mariana Massarani, uma excelente ilustradora brasileira.
É um livro para as férias, para ler e ler de novo em tardes chuvosas, quando o sol fica escondido imaginando o que inventaremos sem ele...
Leia Bem do seu tamanho.
Leia escritores brasileiros!

Leia Ana Maria Machado!

Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina