quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Tons e Letras: eu recomendo

Convidada a recomendar um livro para os ouvintes do programa Tons e Letras, produzido e apresentado pelo Luis Dill[1] na Rádio FM Cultura de Porto Alegre[2], escolhi Felpo Filva, de Eva Furnari. Em seu programa, Dill oferece ao público, informações do universo literário. Assim, autores, editores, tradutores, ilustradores, leitores, além de entrevistas aprofundadas são sua “matéria” semanal.
E por que Felpo Filva, de Eva Furnari é bom?
Ele não é bom, é maravilhoso!
Escrito em 2006 e integrando a série Do avesso, uma de suas características é permitir sucessivas leituras, sem perder o poder de encantamento.
Na narrativa dessa paulistana maluca – a Eva Furnari - Felpo é um coelho poeta que, recluso em sua toca, ignora as cartas que seus leitores insistem em enviar. Um dia, resolve escrever sua Biografia. Assim, diante de sua máquina de escrever, rememora a infância:

“Capítulo I – A infância
Meu nome é Felpo Filva. Sou poeta e escritor. Sou um coelho solitário, não gosto de sair da toca. Quando eu era pequeno sofri muito porque tinha uma orelha mais curta que a outra. Os colegas sempre zombavam de mim...” (FURNARI, 2006, p. 09).

Interrompido pelo carteiro, Felpo percebe, entre a correspondência trazida por ele, um envelope grande, lilás, amarrado com um laço de fita de cetim. Ao abri-lo, sua vida nunca mais será a mesma.
Charlô Paspatu, a leitora que lhe envia a carta, assim escreve:
“Rapidópolis, 20 de fevereiro
Prezado Senhor Felpo Filva
Meu nome é Charlô e admiro demais o seu talento e os seus poemas, mas, se me permite, tem algunzinhos deles que eu não gosto nem um pouco. Sinceramente, eu discordei da história do poema da Princesa do Avesso! Cruz-credo, que final pavoroso!” (FURNARI, 2006, p. 12).

Felpo, indignado com a petulância da desconhecida, amassa e joga fora a carta.
Sim.
A carta vai para o lixo, mas o assunto não.
E, a partir desse início sedutor, a obra, em 56 belas e instigantes páginas, de maneira intensa e original registra e inventa a complexidade do tempo de Felpo, um poeta que se apaixona e reinventa a si mesmo.
No livro, o leitor é convidado a conhecê-lo em seus limites e possibilidades.
E quem pode ouvir ou ler essa história?
Pequenos desde os cinco, seis anos, se encantam com Felpo e suas peripécias, especialmente quando descobre, em um dia de muita chuva, que Charlô está em apuros com um piano!
Felpo Filva é imperdível.
É uma porta para a literatura de Eva Furnari, uma autora e ilustradora de primeira.
Seus personagens, muitos, variados, de todos os tipos físicos e psicológicos, integram uma galeria de curiosos sujeitos, todos prontinhos para serem desvendados.
Felpo Filva, esse livro incrível, revela idéias e sentimentos que têm a propriedade de durar na memória do leitor.
A partir de situações aparentemente prosaicas, como escrever uma receita de bolo, tomar um chá com alguém, sair de casa, conversar e saber o que os outros pensam de nossas atitudes, o leitor é convidado a pensar e rir. Até de si mesmo.
Se um “clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer", como afirma Ítalo Calvino, Felpo Filva, de Eva Furnari, é um clássico na Literatura para crianças.
Ouça, o programa vai ao ar aos sábados.

Ficha técnica:
Tons & Letras
Apresentação: Luís Dill
Produção: Luís Dill
Horário: Sábados, às 11h
Twitter: @fm_cultura
Facebook: fmcultura107.7




[1] Luís Dill estreou em 1990 com a novela policial juvenil "A caverna dos diamantes". Possui mais de 40 livros publicados além de participações em diversas coletâneas. Seu livro "Destino sombrio" (Companhia das Letras) recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. O autor tem o site www.luisdill.com.br 

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Alfabeteando...

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler. Alguns momentos importantes estão aqui. 2013 – Publicação dos estudos sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936; 2015 – Inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, na FaE/UFPel; 2016 – Restauro e ambientação da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro; 2017 – Escrita da Biografia literária de João Bez Batti, a partir de relatos pessoais. Bilíngue – português e italiano – tornou-se um E-Book; 2018 – Feira do Livro com Anna Claudia Ramos (http://annaclaudiaramos.com.br/). 2019 – Produção de Íris e a Beterraba, um livro digital ilustrado por crianças; 2020 – Produção de Uma quarentena de Receitas, um livro criado para comemorar a vida; 2021 – Ruas Rosas e Um abraço e um chá, duas produções com a UNAPI; 2022 – Inicio de Pesquisa de Pós-Doutorado em acervos universitários. Foco: Há livros literários para crianças que abordem o ECA? 2023 – Tragicamente obsoletos: Publicação de um catálogo com livros para a infância.

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